Caminhos que se encontram
A praia estava vazia demais para aquela hora do dia. Não deserta, apenas esquecida. O céu mantinha um cinza uniforme, sem ameaça de chuva, sem promessa de abertura. O vento vinha do mar em rajadas constantes, empurrando a areia rente ao chão, apagando pegadas antes que ganhassem forma.
Marina caminhava com as mãos nos bolsos do casaco, os passos firmes, como quem anda para organizar pensamentos. Não olhava o mar diretamente; preferia mantê-lo à margem do campo de visão, como se encará-lo exigisse mais do que estava disposta a oferecer.
Foi então que a percebeu.
Alice estava parada perto da linha d’água, descalça, os sapatos abandonados na areia mais seca. A barra da calça escura, já umedecida, denunciava que não se importava com a proximidade das ondas. Não parecia observar o mar, parecia escutá-lo. O corpo permanecia imóvel, mas relaxado, como se aquele lugar não fosse visita, mas extensão.
O cabelo, preso de forma displicente, deixava fios soltos que o vento insistia em puxar para frente do rosto. Ela não os afastava. Apenas deixava que voltassem sozinhos.
Sem perceber, Marina diminuiu o passo. Não por cautela, mas por atenção. Havia presenças que exigiam outro ritmo. Observou os ombros de Alice, largos o suficiente para sugerir firmeza, mas sem tensão. A jaqueta clara contrastava com o céu fechado. Nada ali parecia excessivo. Nada parecia improvisado.
Em algum momento, a mulher junto à água virou levemente o rosto. Não chegou a encarar, virou apenas o suficiente para perceber que não estava sozinha.
Os olhares se encontraram por um segundo. Talvez menos. Não houve sorriso. Nem constrangimento. Apenas reconhecimento.
Marina seguiu adiante, passando alguns metros além. O som do mar retomou espaço. Ainda assim, havia a certeza incômoda de que continuava sendo observada. Nenhuma delas se virou novamente. Mas ambas souberam, com a mesma clareza silenciosa, que aquele instante não se encerrava ali.
No dia seguinte, o comércio local funcionava em seu ritmo mínimo. Poucas portas abertas, vitrines sem apelo, horários escritos à mão. A cidade, fora da temporada, não fazia esforço para agradar.
Marina entrou no pequeno mercado mais por hábito do que por necessidade. O sino na porta anunciou sua presença com um som breve. O lugar cheirava a café recém-passado e limpeza recente. Percorria os corredores estreitos quando sentiu, antes de ver, a presença familiar.
Alice estava perto da prateleira de pães, parada de lado, o corpo levemente inclinado enquanto avaliava as opções com calma. Marina pôde então prestar mais atenção na figura que lhe chamara a atenção desde a praia. Ela era de estatura média para alta, com uma postura que chamava atenção antes mesmo das formas: ombros bem assentados, coluna ereta sem rigidez, como alguém acostumada a ocupar o próprio espaço sem precisar afirmá-lo.
O cabelo, agora solto, caía até a altura dos ombros, pesado o suficiente para acompanhar o movimento do corpo quando ela se virava, leve o bastante para reagir ao menor deslocamento. Ainda guardava algo do vento da praia, um desalinho discreto que contrastava com a tranquilidade dos gestos.
A blusa clara de manga comprida delineava o tronco de maneira natural, sem marcar excessos, mas sem escondê-los. O tecido acompanhava as curvas com honestidade, nem justo, nem largo, sugerindo mais do que mostrando. Havia equilíbrio ali: cintura definida, quadris firmes, uma solidez silenciosa que se percebia mesmo na imobilidade.
Os braços, descobertos até os pulsos, tinham linhas seguras, mãos grandes o bastante para parecerem firmes, mas cuidadosas no modo como tocavam os produtos na prateleira. Nada nela parecia apressado.
Quando percebeu que não estava sozinha no corredor estreito, Alice ergueu o rosto com tranquilidade. Os olhos percorreram a outra mulher sem pressa, registrando altura, distância, presença. Não houve surpresa, apenas um reconhecimento atento, como se aquele corpo já tivesse sido notado antes, mesmo sem proximidade.
O olhar se manteve por um instante a mais do que o necessário. O suficiente para transformar observação em interesse. E então, mais uma vez, os olhares se encontraram. Desta vez, permaneceram.
— Parece que essa cidade gosta de repetir encontros — disse Marina, com voz calma.
Alice levou um segundo a mais do que o necessário para responder, observando o rosto à sua frente: traços firmes, olhos atentos, uma expressão aberta sem ser invasiva.
— Ou talvez a gente esteja andando nos mesmos horários — respondeu, num meio sorriso contido.
Marina assentiu, aceitando a resposta sem testá-la.
— Você chegou recentemente, não foi? — perguntou Alice.
— Cheguei. Para poucos dias.
— Poucos dias costumam virar mais — comentou Alice, colocando o pão na cesta.
Caminharam juntas até o caixa sem combinar. O espaço estreito obrigava uma proximidade cuidadosa. Corpos quase se tocando. O silêncio, agora, tinha outro peso. Trocaram nomes enquanto pagavam. Simples. Mas dizer o nome em voz alta criou algo que antes não existia.
Do lado de fora, o vento as recebeu de novo.
— A praia estava diferente ontem — disse Marina. — Mais vazia.
— Às vezes parece que a cidade se recolhe junto com o mar — respondeu Alice.
Marina sorriu, breve. Houve uma pausa. Não constrangedora. Expectante.
— Se quiser caminhar mais tarde… — Alice começou, deixando a frase em aberto.
Marina olhou a rua quase vazia, depois voltou o olhar para aquele rosto agora familiar demais.
— Talvez.
Não combinaram horário. Nem lugar. Não era preciso.
O fim da tarde trouxe um frio mais decidido. O céu permanecia fechado, mas a luz agora era mais densa, como se o dia se recolhesse cedo demais.
Alice caminhava pela orla quando a viu se aproximar no sentido contrário. Nenhuma surpresa. Apenas confirmação. Diminuíram o passo juntas.
— Achei que talvez você viesse — disse Marina.
— Eu também — respondeu Alice, percebendo tarde demais o peso da frase.
Andaram lado a lado, agora com menos espaço entre os corpos. O vento empurrava uma em direção à outra, e nenhuma fazia esforço para corrigir o desvio. Quando os braços se tocavam, de leve, quase por descuido, o contato deixava um rastro silencioso: o calor que atravessava o tecido, a breve resistência da pele, a consciência imediata do outro corpo ali.
Não era um toque contínuo, mas repetido o bastante para criar expectativa. Cada roçar ajustava o ritmo da respiração, alterava a postura, chamava atenção para lugares do corpo que até então permaneciam neutros. O simples encostar do antebraço fazia com que ambas percebessem o próprio peso, a própria temperatura, a própria presença.
Era rápido demais para ser explicado como intenção. Lento demais para ser ignorado. E, a cada novo contato, ficava mais difícil distinguir onde terminava o acaso e começava a escolha.
A conversa tentou se manter neutra, mas falhava nos silêncios. O olhar agora permanecia. Observava. Ao atravessarem um trecho irregular da areia, Alice estendeu a mão:
— Aqui é fácil escorregar.
Marina aceitou. O toque foi simples. Necessário. Ainda assim, demorou mais do que devia para ser desfeito. A pele estava quente. Pararam perto de uma formação de pedras, onde o vento batia menos.
— Você sempre caminha assim? — perguntou Alice, observando-a sem disfarce. — Como se estivesse procurando algo.
— Talvez eu esteja — respondeu Marina. — Só ainda não sei o quê.
Alice sorriu de leve. Aproximou-se um pouco mais. Não tocou. Mas não deixou espaço.
Um fio de cabelo foi levado pelo vento para o rosto de Marina. Alice levantou a mão, hesitou por um instante, pergunta muda, e afastou o fio com cuidado. O toque na têmpora foi breve, deliberado.
Nenhuma se afastou.
— Está frio — murmurou Marina.
Mas permaneceu.
Alice tocou o braço dela, os dedos fechando-se suavemente, mais como pedido do que como posse. Sentiu a resposta antes mesmo de vê-la.
— Talvez devêssemos voltar — disse Alice, sem especificar para onde.
Nenhuma discordou.
Voltaram a caminhar sem pressa, deixando as pedras para trás. A areia, agora mais firme, acompanhava o ritmo dos passos como se já estivesse acostumada àquela aproximação. O mar seguia à esquerda, constante, mas já não exigia atenção, tornara-se pano de fundo.
A conversa não retomou. Não por falta do que dizer, mas porque o silêncio começava a cumprir outra função. Havia uma escuta diferente ali, menos voltada para o som das palavras e mais para a presença que caminhava ao lado.
Em certo momento, a rua surgiu quase naturalmente, como extensão do caminho, não como ruptura. Casas baixas, fachadas simples, poucas luzes acesas. A cidade se recolhia cedo naquela época do ano.
Marina percebeu que estavam mais próximas agora. O braço da outra roçava o seu com frequência suficiente para deixar de ser acaso. Nenhuma comentou. Nenhuma se afastou.
— Você sempre caminha até aqui? — perguntou Marina, mais para ocupar o ar do que por real curiosidade.
— Às vezes — respondeu Alice.
A frase ficou aberta. Como tudo entre elas.
Seguiram por mais alguns metros. A luz amarelada de uma das casas parecia diferente das demais, não mais convidativa, apenas presente. Alice diminuiu o passo quase sem perceber.
Pararam.
— É aqui — disse, simples, como quem apenas reconhece um ponto no caminho.
Marina acompanhou o olhar até a porta de madeira, a janela parcialmente iluminada. Não houve gesto imediato. Nenhuma urgência em encerrar o percurso.
O vento voltou a se fazer notar, atravessando o espaço entre elas, lembrando que ainda estavam do lado de fora.
Alice girou a maçaneta, abrindo a porta apenas o suficiente para que a luz escapasse para a calçada.
— Se quiser…
Não era um convite explícito. Era uma possibilidade aberta.
Marina hesitou apenas o tempo necessário para reconhecer o próprio desejo, não como impulso, mas como escolha. Depois, deu um passo à frente, olhou para dentro por um instante breve, mais para dentro de si do que da casa, e deu mais um passo.
A porta se fechou atrás delas com um som baixo, definitivo demais para ser ignorado.
O contraste foi imediato. O vento ficou do lado de fora. O silêncio tomou forma. A casa não era grande, mas era acolhedora: móveis simples, poucos objetos, tudo disposto sem excesso, como se nada estivesse ali por acaso.
— Fique à vontade — disse Alice, retirando o casaco e pendurando-o com cuidado.
Marina fez o mesmo, consciente de que agora cada gesto era observado. A proximidade ainda era respeitosa, mas havia uma atenção diferente no ar, mais densa, mais focada.
— Quer se aquecer um pouco? Posso fazer um chá — ofereceu Alice, caminhando até a cozinha.
— Pode ser — respondeu Marina, sem convicção real na resposta.
Enquanto a água esquentava, ficaram de frente uma para a outra, separadas por poucos passos. A conversa tentou se manter neutra, mas falhava nos intervalos, nos silêncios longos demais, nos olhares que demoravam além do necessário.
Alice se aproximou para entregar a xícara. Os dedos se tocaram por acaso, ou talvez não. O contato foi breve, mas suficiente para alterar o ritmo da respiração de ambas.
— Desculpa — murmurou Alice, sem se afastar de imediato.
— Tudo bem — respondeu Marina, e não parecia estar falando apenas do toque.
O espaço entre elas já não era neutro. Era ocupado.
Marina levou a xícara à boca, mas não bebeu. O vapor subia lento, criando uma névoa breve entre elas, e foi nesse intervalo, entre o gesto interrompido e o ar quente, que a distância pareceu diminuir. Não porque alguém tivesse se movido de fato, mas porque o espaço deixou de ser neutro.
O cheiro do chá, denso e quente, contrastava com o frio que ainda permanecia na pele, trazido da rua, da praia, de antes. Marina manteve a xícara suspensa por um instante a mais do que o necessário.
— Você fica diferente aqui dentro — disse, sem acusação. Apenas como quem percebe algo inevitável.
— Diferente de onde? — perguntou Alice, baixa, quase cautelosa.
— De fora.
A frase ficou entre elas, aberta, carregada de sentidos possíveis. Não pediu explicação. Não ofereceu defesa.
Marina sentiu primeiro no corpo: a atenção que se estreitava, o calor que se concentrava em pontos específicos, a consciência precisa de onde estava e com quem estava. Depois, sentiu no silêncio, agora denso demais para ser confortável, longo demais para ser casual.
Alice deu um passo à frente. Apenas um. Não invadiu o espaço, apenas o redefiniu. A proximidade tornou qualquer recuo não apenas possível, mas visível demais para ser escolhido.
Quando a mão de Alice tocou-lhe o braço com cuidado, o gesto não foi precipitado. Foi lento, deliberado, um toque que perguntava antes de afirmar.
Marina respondeu inclinando-se levemente, fechando a distância que ainda existia.
A casa parecia menor agora, o mundo, distante. E tudo o que vinha a seguir já estava decidido, ainda que não tivesse sido dito.
Alice estendeu a mão com calma, envolvendo a xícara ainda suspensa entre os dedos de Marina. O gesto não foi brusco nem apressado, apenas firme o suficiente para ser incontestável. Retirou a xícara devagar, como se desse tempo ao corpo de Marina para acompanhar a decisão, e a colocou sobre a mesa ao lado, onde o som do contato pareceu alto demais no silêncio do cômodo.
Quando voltou a se aproximar, não havia pressa. Apenas uma redução consciente da distância.
Alice inclinou o rosto levemente, o bastante para que Marina sentisse sua presença antes mesmo de tocá-la. O ar entre as duas tornou-se curto, denso, o espaço agora servia apenas para confirmar o que já estava claro.
Marina não se afastou, não desviou o olhar. Permaneceu.
A proximidade dizia tudo o que nenhuma das duas precisava colocar em palavras. Sem se afastar um milímetro sequer, Alice ergueu a mão e fez um carinho que começava no rosto de Marina e descia vagarosamente até o pulso, deixando a pele arrepiada por onde passava.
Alice pegou a mão de Marina e colocou-a em sua cintura fina, que a segurou delicadamente. O rosto de Marina foi novamente acariciado; ela fechou os olhos em expectativa. Marina notou o joelho de Alice tentando se encaixar entre suas pernas e as separou um pouco para que Alice ficasse mais confortável.
Alice fez tudo vagarosamente, e essa calmaria deixou Marina tranquila. Marina fechou os olhos por um instante e, ainda de olhos fechados, sentiu os lábios de Alice pressionando os seus e, quase que involuntariamente, os abriu para receber a língua macia.
Alice conduziu o beijo com naturalidade, calmamente, permitindo que saboreassem o que havia de melhor. Nem mesmo ao sugar a língua de Marina houve pressa, e era impossível contar quantos arrepios Marina sentiu desde que os lábios se encontraram.
Alice se afastou lentamente. Marina abriu os olhos.
— Você está bem? — perguntou Alice, com um tom preocupado.
— Melhor, impossível.
Os dedos de Alice passearam pelos lábios de Marina, e ela afirmou:
— Eu poderia te beijar a noite inteira sem me cansar… a sua boca é tão macia e tão gostosa quanto imaginei.
— Você estava pensando na minha boca?
— Desde a primeira vez que te vi sorrindo na praia… acho que você não faz ideia do quanto é linda e sexy.
— Já que o estrago foi feito e a minha calcinha já está molhada, você me permite continuar a beijar a mulher mais linda que tive o prazer de conhecer?
— Não seja exagerada! — pediu Marina, sorrindo e agradecendo mentalmente pela delicadeza de mudar de assunto. Ela não sabia como reagir a elogios.
— Não estou exagerando. Tudo o que acabei de dizer é a mais pura verdade.
— Você quer me convencer de que molhou a calcinha com um único beijo?
— Se você não me parecesse tão tímida, eu te diria para verificar pessoalmente — disse Alice, sorrindo. — E não foi um beijo qualquer, foi o beijo de uma mulher que povoa a minha mente desde o momento em que te vi na praia ontem a tarde.
Marina ainda sorria quando Alice terminou a frase. Havia algo de satisfeito em seu olhar, não vaidade, mas reconhecimento. Como se tivesse encontrado exatamente o que procurava sem saber que procurava.
Ela não respondeu de imediato. Apenas voltou a beijar Alice, desta vez sem a mesma delicadeza contida de antes, mas também sem urgência. Um beijo mais seguro, mais pleno, que começava nos lábios e se espalhava pelo rosto, pelo canto da boca, pela linha suave do maxilar. Marina sentiu o corpo responder antes mesmo de pensar: um deslocamento natural do peso, um ajuste mínimo que aproximava ainda mais as duas.
Alice deslizou os dedos pela lateral do corpo de Marina, não explorando, apenas reconhecendo, como quem memoriza. A mão que antes repousava na cintura agora subia e descia em movimentos curtos, tranquilos, mantendo-a ancorada ali.
— Vem — disse baixo, quase como se estivesse continuando o beijo com a voz.
Não soou como convite formal, soou como continuidade. Marina não perguntou para onde, apenas foi.
Andaram juntas pelo corredor estreito, os passos lentos, os corpos ainda se tocando em pontos suficientes para que o contato não se perdesse. O ambiente parecia mais silencioso à medida que avançavam, como se a casa respeitasse o que se formava ali.
Ao chegar ao quarto, Alice parou à porta por um instante. Não entrou de imediato. Olhou Marina com atenção renovada, como se aquele novo espaço pedisse um novo olhar.
— Se quiser parar… — começou, sem terminar a frase.
Marina não respondeu com palavras. Apenas aproximou-se, encurtando a distância, e tocou o rosto de Alice com as duas mãos, repetindo o gesto que havia recebido antes, agora com intenção clara. O carinho desceu devagar, deixando claro que não havia dúvida ali, apenas escolha.
Alice fechou a porta atrás delas com um movimento calmo. O resto do mundo ficou do lado de fora.
— Se o estrago já está feito…
Marina não terminou a frase. Retomou o beijo, agora com menos contenção, sentindo Alice sorrir brevemente contra seus lábios antes de inclinar o corpo um pouco mais em sua direção. O ajuste foi sutil, mas suficiente para alinhar os corpos, para que o contato deixasse de ser apenas promissor e passasse a ser real.
Alice correspondeu sem hesitar. Uma das mãos subiu para a nuca de Marina, sustentando o beijo com firmeza tranquila, enquanto a outra deslizava pela lateral do corpo, guiando-a com suavidade, não havia pressa, apenas direção.
Os passos vieram quase sem consciência. Um recuo lento, outro, até que Marina sentiu a borda da cama tocar a parte de trás de suas pernas. A percepção fez o beijo mudar de intensidade, não mais profundo, mas mais atento. Alice se afastou apenas o necessário para observá-la por um instante, como se quisesse guardar aquela imagem.
— Aqui — murmurou, batendo no colchão, sem realmente explicar.
Marina sentou-se primeiro, sem quebrar o contato. Alice a acompanhou logo depois, mantendo a proximidade, os joelhos agora alinhados, os corpos inclinados um para o outro. O quarto parecia menor, mais íntimo, como se tivesse sido moldado para conter aquele momento.
Alice tocou o rosto de Marina novamente, o gesto conhecido, agora mais seguro. O beijo voltou, lento, exploratório, enquanto Marina sentia o colchão ceder sob o peso das duas, um aviso silencioso de que não havia mais retorno ao que era antes.
Quando Alice a fez deitar, foi com a mesma calma de tudo até ali, nada foi imposto, tudo foi permitido.
Alice voltou a beijá-la e a sentiu sorrir rapidamente antes de inclinar um pouco mais o corpo em direção ao dela. Porém, quem ficou por cima com metade do corpo sobre o de Alice foi Marina, essa posição lhe dava mais liberdade com as mãos, e Alice segurou um suspiro no ar assim que Marina enfiou a mão debaixo da camisa e tocou a pele tão quente quanto sua palma.
Marina sugou a língua com mais afinco, e Alice sentiu seu interior responder imediatamente, com o coração acelerando e a barriga esfriando.
A mão de Alice foi guiada até entrar debaixo da camisa de Marina e sentir a pele se arrepiando conforme subia por sua barriga. Alice só parou quando o seio dela, cujo mamilo estava túrgido, foi tomado por sua palma.
— Marina… o que você quer? — perguntou Alice baixinho.
Alice sentiu uma mordida leve na ponta da orelha, e a resposta veio em um sussurro gostoso:
— Quero muitas coisas com você, Alice, mas no momento me satisfaço com mais beijos enquanto sua mão castiga meu seio… quero sentir seu corpo explorar o meu com mãos e boca e adormecer sentindo seu corpo gostoso grudado no meu.
A reação de Alice, num primeiro momento, foi apertar a carne macia sob sua palma, o que fez Marina gemer muito baixinho, quase inaudível. Em pensamento, Alice refletiu: não sou de ferro. Então, não resistiu à tentação de tomar seus lábios com um pouco mais de pressa, sem perder a oportunidade de massagear o seio e apertar o mamilo com delicadeza.
Marina ficou com a respiração mais agitada e passou a chupar a língua de Alice de um jeito tão obsceno que a mente de Alice projetou esse mesmo movimento sendo feito em uma parte bem específica da sua anatomia.
Marina mordeu o lábio inferior quando sentiu sua orelha ser deliciosamente lambida. As mãos de Alice trabalharam com perfeição em seus seios, fazendo massagem e estimulando os mamilos de um jeito tão gostoso que seu ventre se contraiu.
Quando, mais uma vez, Alice tomou sua boca, seus beijos foram tão lascivos que a deixaram quente, muito quente. Marina não se lembrava de ter sentido tamanho tesão antes e pensou que não se importaria de gozar naquele instante mesmo, sem ao menos ter sido estimulada de fato a isso.
Quando a língua de Marina passou a ser chupada, ela quase saiu de órbita, ainda mais porque Alice conseguia fazer em seus mamilos, com as mãos, o que os lábios faziam com a boca, tudo muito sincronizado e com o joelho a pressionar a sua vulva. O vai e vem nas três partes do seu corpo, mesmo por cima das roupas, era tão erótico que causava uma sensação nova em sua intimidade.
— É melhor parar, acho que estou prestes a gozar — disse Marina, encerrando o beijo e afastando a cabeça um pouco para conseguir falar.
Alice as virou na cama num golpe, e Marina deu um gritinho de susto, rindo em seguida. Alice saiu da cama rapidamente e tirou a calça ainda mais rápido, subiu na cama engatinhando e, ao chegar sobre ela, fez praticamente uma flexão de braço, descendo o corpo bem lentamente sem desfazer o contato visual. Alice manteve um braço dobrado para sustentar o peso e deitou sobre Marina. Os corpos estavam quentes e, com certeza, ficariam ainda mais.
Quando as bocas se encontraram novamente, não houve nada de calmo, não se sabe dizer como, mas elas se encontravam agora sem uma peça de roupa sequer separando seus corpos e Alice guiou, movimentando os lábios e a língua com mais velocidade, e suas unhas passearam pelas costas de Marina, arranhando de leve. Ela foi tomando a frente dos inúmeros beijos, sendo impossível explicar o nível de tesão que ambas sentiam.
As mãos fortes e grandes de Alice passearam pelos seios e pela barriga de Marina, e, a cada segundo que passava, elas se sentiam cada vez mais confortáveis com o fato de estarem completamente nuas.
Alice espalhou beijos e mordidas leves pela barriga de Marina e sentiu a pele dela se arrepiar. Marina enfiou os dedos nos cabelos de Alice e começou a gemer discretamente quando Alice deu um beijo leve no centro do seu prazer encoberta por uma cada fina de pelos dourados.
Alice subiu sobre o corpo o suficiente para abocanhar o mamilo e, então, colocou-se entre suas pernas. Passou um bom tempo se deliciando com seus seios e sorriu discretamente com a certeza de que Marina estava cada vez mais excitada.
Sentindo a própria umidade aumentar, Alice se levantou vagarosamente e sorriu ao ver que Marina se movia, colocando os pés na beirada da cama e ficando completamente exposta.
Alice começou a se ajoelhar, pairando sobre seu corpo em completa rendição e pensando em beijá-la como preliminar. No entanto, Marina tinha outro plano em mente. Ela segurou o queixo de Alice com uma mão e, encarando-a, exalando luxúria, declarou:
— Quero seus lábios onde interessa.
Alice usou delicadamente os dedos para deixá-la ainda mais exposta e foi aproximando o rosto vagarosamente. Subiu o olhar, e os olhares se encontraram.
Alice passou com delicadeza a língua de baixo para cima, sentindo o quadril de Marina se mover no sentido contrário, enquanto um gemido baixo era ouvido.
Seguindo a ordem que lhe fora dada, Alice não demorou a focar as atenções no clitóris inchado e levemente saliente. Conforme sugava com uma pressão mediana, Marina foi movendo o quadril, e Alice pôde acompanhar seu rosto ficando mais corado.
Marina não desviou os olhos dos de Alice, e, de alguma forma, isso a tornava ainda mais sexy. Alice percebeu claramente que o orgasmo se aproximava, então diminuiu um pouco o ritmo, o que fez Marina erguer uma sobrancelha.
Por milésimos de segundo, ela pareceu perder um pouco o foco. Porém, o que pediu em seguida quase fez Alice perder o foco também.
— Coloque um dedo — pediu, com a voz firme. — Por favor… quero sentir você dentro de mim.
Alice esperou um pouco até que Marina estivesse novamente conectada com o prazer proporcionado por seus lábios e lhe ofereceu a mão esquerda para que segurasse.
Marina entrelaçou os dedos e manteve o olhar cheio de desejo. Alice começou a penetrá-la com o dedo, devagar, com muito cuidado, sem abandonar o clitóris cada vez mais inchado.
— Está tudo bem — disse Marina, a voz saindo meio cortada pelo prazer. — Pode ir mais fundo…
Testando seus limites, Alice adicionou mais um dedo, ainda de forma cuidadosa., acompanhou as reações e notou que Marina passou a respirar com dificuldade, com a respiração mais curta, indicando que seu prazer estava muito perto.
Alice não parou de penetrá-la e, ao mesmo tempo, pressionava o clitóris com a língua de forma a deixá-la com a respiração cada vez mais forte. Instintivamente, suas paredes internas apertaram os dedos de Alice.
Alice aumentou a pressão sobre seu ponto de prazer e, em poucos segundos, os olhos de Marina se fecharam.
Marina começou a gozar, e o corpo de Alice se arrepiou por inteiro ao ouvi-la gemer e sentir as falanges sendo apertadas, tanto as que estavam dentro dela quanto as da mão que ela segurava.
Alice foi saindo de dentro dela vagarosamente, e o corpo de Marina deu um espasmo. Um sorriso lindo brotou em seus lábios rosados, e Alice continuou observando seu imediato pós-gozo enquanto sugava tudo o que sua intimidade lhe oferecia.
Marina ainda respirava com dificuldade, e Alice ficou ao seu lado após retirar as almofadas e travesseiros de debaixo de seu corpo meio mole.
A noite seguiu sem contagem de horas. Não houve pressa, nem intenção de marcar começo ou fim, apenas continuidade. Corpos que se buscavam novamente depois do descanso breve, mãos que reaprendiam caminhos já conhecidos, bocas que voltavam a se encontrar como se cada vez fosse a primeira.
Entre um adormecer e outro, havia risos baixos, respirações ainda irregulares, carícias distraídas que não tinham outro propósito além de permanecer. O quarto guardava o cheiro das duas, misturado ao sal que ainda parecia ter vindo da praia, como se o mar tivesse acompanhado tudo em silêncio.
Quando o sono finalmente chegou, veio sem separação. Corpos encaixados, pele contra pele, a confiança simples de quem não precisava mais vigiar nada.
A manhã entrou devagar, filtrada pela luz clara que atravessava a janela. Marina foi a primeira a acordar. Ficou alguns instantes imóvel, sentindo o peso morno do corpo ao seu lado, o braço de Alice atravessado sobre sua cintura como se ainda a protegesse do mundo.
Não houve susto, apenas reconhecimento.
Alice despertou pouco depois, ainda sonolenta, e sorriu sem abrir totalmente os olhos, como se soubesse exatamente onde estava.
— Bom dia — murmurou, a voz baixa, ainda carregada da noite.
Marina respondeu com um beijo lento, sem urgência, sem promessa além daquela que já se fazia ali.
Não falaram sobre depois, não combinaram nada, mas, enquanto permaneciam deitadas, observando a manhã crescer, ambas sabiam que aquilo não se encerrava naquele quarto, nem naquela cidade fora de temporada.
Era apenas o início de novas descobertas. Juntas.

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